
"Uma exposição come esta amplitude e abrangência pretende, naturalmente, assinalar um trajecto, um percurso artístico, ao mesmo tempo que tem a intenção de uma homenagem. Justa homenagem, de resto, a um artista como o Pintor Enrique Valero, que durante mais de um quarto de século aqui viveu e trabalhou, deixando assinalável rasto e excelente espólio.
Não se trata, porém, do epílogo de um trajecto artístico ou do fim de uma caminhada. O artista, como se pode constatar pela sua produção recente, continua vivo e extremamente fértil.
Enrique Valero, nascido em Alcácer Quibir, Marrocos, onde viveu os primeiros anos da sua juventude, é portador, por origem, de uma cultura predominantemente espanhola. A luz do seu país de origem não deixará de o marcar em toda a sua rota artística.
Quando, no início da década de 60, com a juventude dos vinte e poucos anos, chega a Angra do Heroísmo, é de esperar o inevitável choque. A Angra chega-se de barco a vapor, é um tempo lento, de vagares, para um jovem que experimentara o bulício de Paris e Madrid, onde já expusera e conhecera o que se estava fazendo no domínio das artes visuais.
Não obstante ter-se radicado nos Açores, na Ilha Terceira, continua a sair frequentemente, a ver mundo, não deixando, porém, de se integrar no seu novo meio. Continua a intervir como pintor e em outras funções paralelas de carácter estético. E essa intervenção artística estende-se a diversas áreas, funcionando livremente, não deixando de fazer pedagogia, de criar discípulos.
Dotado de invulgar talento, Enrique contagia muita gente, pelo lado afectuoso da sua maneira de estar. Mas é um privilégio acompanhar o trabalho das suas mãos, o acto do seu desenho, o acto da pintura, o momento da criação. A maestria da mão facilmente conduzida, sem hesitações, que, do ponto, do traço, conduz à forma acabada, perfeita.
Com centenas de obras no seu curriculum, sabendo bem o que quer, Enrique Valero tem, como qualquer grande artista, diversas fases no seu percurso. A obra reflecte a sua disponibilidade. E um artista também é gente que come, que paga renda, luz, impostos e agasalho. Muitas outras coisas lhe fazem falta. E quantas vezes se vê assediado por tudo isto. Mais ainda pela pressa do marchand e pela pressa do seu público.
Esta é, pois, a exposição possível. Porque Valero tem obras dispersas por vários países. Mas é uma mostra suficiente para, sem contestação, demonstrar quanto lhe é devida a atribuição de um bom lugar em qualquer grande museu do Mundo.
Para a carreira do pintor, o tempo açoriano marca definitivamente a sua obra. Os rostos dos seus frisos, dos seus retratos, das suas "famílias", são faces que encontramos, por aí, nas ruas da nossa terra.
Mesmo depois de 1989, quando passou a viver e a trabalhar em Madrid, o pintor levou consigo a cor dos olhos, do cabelo, dos laços das meninas da Terceira. Gente do povo, com trajes festivos, com o mesmo estigma. Este povo passa definitivamente a fazer parte do seu universo. Naturalmente, integração sem revolta, com gosto, com sedução. Valero não resiste à sedução das pessoas e das coisas, dos frutos e das flores, da paisagem enfim. Tudo pinta como seu, com familiaridade e volúpia.
A sua urbanidade mistura-se com o rural, sem qualquer espécie de traição. Eros, paixão, sensualidade são parte da sua escrita pictórica que não desmente a ternura por esta terra.
Em que movimento, escola, tendência se integra Valero? Não é uma questão maior. Trata-se de um homem do seu tempo, que procura acompanhar a contemporaneidade, desvendar os seus segredos e viver as suas causas. Importante, sobretudo, é que continua a trabalhar. Das duas mãos, dos seus olhos, continuam a brotar as luzes, as cores, o sonho que tornam mais humano o mundo em que vivemos."
Dimas Simas Lopes
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