Como se aniquila o tempo? Como podemos prolongar este momento? Como posso morrer várias vezes e ter tanto prazer?
Aniquila para anular, para tornar sem efeito a vida.
Aniquila para destruir e transformar em nada.
A destruição leva-nos a que tudo caia no vazio. A vida deixa de fazer sentido e aqui eles só têm uma alternativa, esperar pela morte.
Depois tudo volta sempre ao início. Depois a vida volta sempre ao início, transformando-se num ciclo incompleto.
Aniquila o tempo, aniquila a espera. Aniquila nunca será definitivo, porque ficará sempre qualquer coisa por aniquilar.
Não consigo sentir o tempo. Aniquilo o tempo para não ter de me lembrar.
Não te reconheço, mas não me consigo lembrar de te esquecer.
A memória não é de confiança.
Imaginário
Sinto-me um simples mortal assustado e desencontrado, na terra branca cheia de corpos moribundos que só se deixam entrever. Aqui limito-me a viver, isso já chega. Não vou a lado nenhum, não há nada que nos justifique, nem que justifique que estejamos aqui.
A culpa não é de ninguém. A culpa nunca é de ninguém.
Aqui a vida é isto, é um contínuo desviar da morte.
Parece que a terra congelou, que se apoderou dos corpos que estavam distraídos nesse momento. A nossa dedicação agora é esquivar-nos dos mortos.
Evitar o chão. Evitar tocar na terra durante muito tempo. Evitar deitarmo-nos de barriga para cimas sobre a terra.
A terra branca, às vezes, lembra-se de engolir alguém. A terra ultimamente tem engolido tanta gente, que as cidades estão a ficar vazias.
Às vezes, conseguimos sair da terra branca, mas outras vezes os desaparecidos ficam assim... desaparecidos para sempre. Não sabemos se estão vivos ou mortos.
Parece que a terra congelou e que os seus corpos ficaram entalados e intactos ao mesmo tempo. Parece que estão à espera de sair da terra qualquer dia.
Há os que procurar a alguém, há outros que tiram da terra os corpos enterrados e cospem na suas caras. Outros simplesmente têm medo. Outros já lá estiveram, debaixo da terra.... alguns voltaram... outros, nem por isso.
Tudo faz sentido na morte. Todos têm inerente na sua cara o medo da morte. Parecem mortos, mas por vezes, parecem vivos.
A cadeira de rodas ajuda-os a não tocar com os pés no chão. Sentarem-se na cadeira de rodas cada dia é mais perigoso. É uma luta, tudo se transforma numa luta.
Tentamos aniquilar o tempo, mas o tempo resiste. Tentamos aniquilar os outros, mas os outros resistem.
Aqui, irremediavelmente, as coisas parecem indeterminadas e inacabadas.
Os corpos perderam a sua volumetria.
O céu, que nunca vimos, vende-se agora aos pedaços. A terra, que sempre vemos, já nada tem para se destruir.
Sinto o peso da tua cabeça sobre o meu peito e o teu cabelo esponjoso roça na pele fina do meu pescoço. O meu corpo distancia-se da minha cabeça. Só a minha mão tenta sair intacta de ali. Estou debaixo de terra... ouço o "chilrear" das rodas a aproximar-se de mim.
Não reconheço as pessoas... não te reconheço. Não me lembro. Os meus actos não perdem valor só porque já não me lembro.
Aniquila - Susana Vidal
Aniquila para anular, para tornar sem efeito a vida.
Aniquila para destruir e transformar em nada.
A destruição leva-nos a que tudo caia no vazio. A vida deixa de fazer sentido e aqui eles só têm uma alternativa, esperar pela morte.
Depois tudo volta sempre ao início. Depois a vida volta sempre ao início, transformando-se num ciclo incompleto.
Aniquila o tempo, aniquila a espera. Aniquila nunca será definitivo, porque ficará sempre qualquer coisa por aniquilar.
Não consigo sentir o tempo. Aniquilo o tempo para não ter de me lembrar.
Não te reconheço, mas não me consigo lembrar de te esquecer.
A memória não é de confiança.
Imaginário
Sinto-me um simples mortal assustado e desencontrado, na terra branca cheia de corpos moribundos que só se deixam entrever. Aqui limito-me a viver, isso já chega. Não vou a lado nenhum, não há nada que nos justifique, nem que justifique que estejamos aqui.
A culpa não é de ninguém. A culpa nunca é de ninguém.
Aqui a vida é isto, é um contínuo desviar da morte.
Parece que a terra congelou, que se apoderou dos corpos que estavam distraídos nesse momento. A nossa dedicação agora é esquivar-nos dos mortos.
Evitar o chão. Evitar tocar na terra durante muito tempo. Evitar deitarmo-nos de barriga para cimas sobre a terra.
A terra branca, às vezes, lembra-se de engolir alguém. A terra ultimamente tem engolido tanta gente, que as cidades estão a ficar vazias.
Às vezes, conseguimos sair da terra branca, mas outras vezes os desaparecidos ficam assim... desaparecidos para sempre. Não sabemos se estão vivos ou mortos.
Parece que a terra congelou e que os seus corpos ficaram entalados e intactos ao mesmo tempo. Parece que estão à espera de sair da terra qualquer dia.
Há os que procurar a alguém, há outros que tiram da terra os corpos enterrados e cospem na suas caras. Outros simplesmente têm medo. Outros já lá estiveram, debaixo da terra.... alguns voltaram... outros, nem por isso.
Tudo faz sentido na morte. Todos têm inerente na sua cara o medo da morte. Parecem mortos, mas por vezes, parecem vivos.
A cadeira de rodas ajuda-os a não tocar com os pés no chão. Sentarem-se na cadeira de rodas cada dia é mais perigoso. É uma luta, tudo se transforma numa luta.
Tentamos aniquilar o tempo, mas o tempo resiste. Tentamos aniquilar os outros, mas os outros resistem.
Aqui, irremediavelmente, as coisas parecem indeterminadas e inacabadas.
Os corpos perderam a sua volumetria.
O céu, que nunca vimos, vende-se agora aos pedaços. A terra, que sempre vemos, já nada tem para se destruir.
Sinto o peso da tua cabeça sobre o meu peito e o teu cabelo esponjoso roça na pele fina do meu pescoço. O meu corpo distancia-se da minha cabeça. Só a minha mão tenta sair intacta de ali. Estou debaixo de terra... ouço o "chilrear" das rodas a aproximar-se de mim.
Não reconheço as pessoas... não te reconheço. Não me lembro. Os meus actos não perdem valor só porque já não me lembro.
Aniquila - Susana Vidal
1 comentário:
"Creio poder formular uma estética baseada, não na ideia da beleza, mas na da força - tomando, é claro, a palavra força no seu sentido abstracto e científico; porque se fosse no vulgar, tratar-se-ia, de certa maneira, apenas de uma forma disfarçada de beleza."
Álvaro de Campos
Enviar um comentário