De vez em quando os pés doem. Quando fazem muita força para se equilibrar ou para se colarem ao chão. De vez em quando as mãos ferem-se quando tentam agarrar coisas que não podem.
De vez em quando as recordações são demasiado vagas para precisar as cores do teu rosto.
Contavas-me que, durante a Primavera e Verão, ao fim da tarde, costumavas colocar-me num cestinho de vime que prendias a um ramo da árvore do quintal (não sei porquê, mas sempre imaginei uma laranjeira, talvez por ter um especial fascínio pelo cheiro a laranja) e atavas a outra extremidade da corda ao dedo polegar do teu pé. Enquanto lias o jornal, deitado na espreguiçadeira, embalavas-me com o pé. Esta é uma das minhas histórias preferidas. Talvez porque sempre foi a que me contavas mais vezes. Gosto de me imaginar bebé, vestida de branco, adormecida pelo sol ameno do final de tarde, envolta num cheiro a laranja. Os passarinhos também deviam cantar. E imagino que também se podia ouvir o som do mar a bater nas rochas. Provavelmente fumavas o teu cigarro e, por entre as páginas do jornal, observavas-me, de quando a quando, com um leve sorriso de avô babado.
Era demasiado bebé para me poder lembrar. Mas, estranhamente, parece ser uma das recordações mais nítidas que tenho da minha infância. Se calhar porque me contaste esta história muitas vezes. Tal como eu, talvez seja das tuas histórias preferidas. Mas então porque é nunca mais a constaste?
Queria tanto ouvi-la outra vez.
Este Verão passei passei pela casa. Não havia nenhuma laranjeira no quintal (talvez nunca tenha existido). A placa com o nome da nossa família já lá não estava. Quis entrar, curiosa, e ver quem é que agora mora lá. Quis entrar mas não o fiz. A janela do sotão estava aberta e havia um vaso com flores vermelhas no parapeito. Não me lembro de como era por dentro, apenas vagamente, pelas fotografias que guardo, pelos sonhos e pelas representações imaginárias.
De vez em quando as recordações são demasiado vagas para precisar as cores do teu rosto.
Contavas-me que, durante a Primavera e Verão, ao fim da tarde, costumavas colocar-me num cestinho de vime que prendias a um ramo da árvore do quintal (não sei porquê, mas sempre imaginei uma laranjeira, talvez por ter um especial fascínio pelo cheiro a laranja) e atavas a outra extremidade da corda ao dedo polegar do teu pé. Enquanto lias o jornal, deitado na espreguiçadeira, embalavas-me com o pé. Esta é uma das minhas histórias preferidas. Talvez porque sempre foi a que me contavas mais vezes. Gosto de me imaginar bebé, vestida de branco, adormecida pelo sol ameno do final de tarde, envolta num cheiro a laranja. Os passarinhos também deviam cantar. E imagino que também se podia ouvir o som do mar a bater nas rochas. Provavelmente fumavas o teu cigarro e, por entre as páginas do jornal, observavas-me, de quando a quando, com um leve sorriso de avô babado.
Era demasiado bebé para me poder lembrar. Mas, estranhamente, parece ser uma das recordações mais nítidas que tenho da minha infância. Se calhar porque me contaste esta história muitas vezes. Tal como eu, talvez seja das tuas histórias preferidas. Mas então porque é nunca mais a constaste?
Queria tanto ouvi-la outra vez.
Este Verão passei passei pela casa. Não havia nenhuma laranjeira no quintal (talvez nunca tenha existido). A placa com o nome da nossa família já lá não estava. Quis entrar, curiosa, e ver quem é que agora mora lá. Quis entrar mas não o fiz. A janela do sotão estava aberta e havia um vaso com flores vermelhas no parapeito. Não me lembro de como era por dentro, apenas vagamente, pelas fotografias que guardo, pelos sonhos e pelas representações imaginárias.
1 comentário:
o murmurio mais bonito. :)
gosto muito de ti.
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